quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Luiz Gonzaga, Cangaceiro Musical

Naquela época, eu percebia que todo cantor regional, todo cantor estrangeiro tinha uma característica própria. O gaúcho, aquela espora, bombacha, chapelão. O caipira tinha lá o seu chapéu de palha. O carioca tinha a famosa camisa listrada e o chapéu-coco. Os americanos, os cowboys.

Quando Pedro Raimundo veio pra cá vestido até os dentes de Gaúcho, eu me senti nu. Eu digo: "Porque o nordeste não tem a sua característica? Eu tenho que criar um troço." Só pode ser Lampião. Apanhei por causa de Lampião. Eu digo: "Eu vou usar o chapéu de Lampião." Aí escrevi para mamãe pedindo um chapéu de um cangaceiro com toda urgência. No primeiro portador que ela teve, ela mandou o chapéu.

Rapaz, quando eu botei o pé no palco da Rádio Nacional só faltaram me matar de raiva. "Como é que você, um mulato formidável, um artista fabuloso, se passa por um negócio desse? Reviver o cangaço, cangaceiros, facínoras, ladrões, saqueadores?" Eu disse "Não se trata disso. É outra coisa. Eu agora sou um cangaceiro musical." Aí eu fique com essa característica.

Luiz Gonzaga
O Pasquim/ 1972

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